Gira Grupo Corpo no Teatro Alfa

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A mais nova criação do Grupo Corpo chega aos palcos brasileiros em agosto: é estreia nacionalmente  Gira, fruto da parceria da companhia mineira de dança com a banda paulistana Metá Metá. Depois da temporada no Teatro Alfa, em São Paulo, que segue até o domingo, 13, o Corpo leva seu novo espetáculo para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro (23 a 27/8), para o Palácio das Artes em Belo Horizonte (2 a 6/9) e para o Teatro do SESI em Porto Alegre (7 e 8/10).

Abrindo as noites, no programa duplo que marca as temporadas da companhia, estará Bach (1996), com a música de Marco Antonio Guimarães retrabalhando o compositor alemão, que foi encenada pela ultima vez no Brasil em 2007.

Gira, coreografia de Rodrigo Pederneiras, cenografia de Paulo Pederneiras, iluminação de Paulo e Gabriel Pederneiras e figurinos de Freusa Zechmeister, se inspira livremente nos ritos da umbanda. O Metá Metá (“três ao mesmo tempo”, em ioruba), através do convite dos Pederneiras, avançou em sua ideia de dedicar um trabalho inteiro a Exu,  o orixá responsável pela comunicação entre o mundo espiritual (Orun) e o mundo material (Aiye).

O trio formado por Juçara Marçal (voz), Thiago França (sax) e Kiko Dinucci (guitarra) – com reforço de Sergio Machado (bateria, sampler e percussão) e Marcelo Cabral (baixo elétrico e acústico)  - produziu uma coleção de temas/ canções que ao poucos  foram se dilatando  na configuração própria para um espetáculo de dança.  A trilha de Gira conta com as participações especiais do poeta, ensaísta e artista plástico Nuno Ramos, que assina uma das letras, e da cantora Elza Soares, que derrama sua voz ancestral e mitológica em duas faixas. A trilha sairá, como de hábito, em CD.

Exu, o mais humano dos orixás – sem o qual, nas religiões de matriz africana, o culto simplesmente não funciona –, é o motivo poético que guia os onze temas criados pelo Metá Metá para Gira.

Chão, céu, caos

Mergulhar no universo das religiões afro-brasileiras para se alinhar ao tema proposto pelo Metá Metá foram a primeiras providências dos criadores do  Grupo Corpo – através da literatura e, em seguida, numa pesquisa de campo, com visitas a terreiros de candomblé e umbanda.  Por ser mais sincrética e brasileira, a umbanda foi se impondo mais que o candomblé.  E Gira foi se moldando como uma visão poética da necessidade atávica do homem (chão) de se conectar com o divino (céu) ou simplesmente com o oculto (caos?).

A cena se traduz num “quadrado” de linóleo negro, de 13m X 9m, intensamente iluminado - representação simbólica de um terreiro, a grande nave da liturgia afro-brasileira. Não há coxias: nas laterais e no fundo do palco, 21 cadeiras estão alinhadas e nelas os bailarinos se colocam ao sair da cena central. Sobre cada cadeira, uma luz tênue sinaliza uma presença. Um “não-cenário”:  o espaço assinado por Paulo Pederneiras é coberto de tule negro, tecido que também envolve os bailarinos sempre que estão fora da cena.

Riscadas por trios, duos ou solos brevíssimos, as formações de grupo (frequentemente em número de sete) são recorrentes. Em uma trilha eminentemente rítmica, duas grandes respirações melódicas abrem espaço para a materialização de solos femininos, dançados sobre a voz de instrumentos igualmente solitários – o baixo acústico de Marcelo Cabral, em Agô Lonan, e o sax tenor de Thiago França, em Okuta Yangi I (tema inspirado na concepção de Exu por Orunmilá e sua esposa).