Urban x Street Controvérsias Culturais

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Controvérsias Culturais: Urban x Street

Gostaria pela primeira vez, expor minha linha de pensamento sobre o assunto polêmico em relação ao termo: "Urban" que já era um tema problemático nos EUA e no Brasil. Em nosso país quando houve a mudança do termo "Dança de Rua" para "Danças Urbanas", confesso que causou-me um certo desconforto e incomodou muitas pessoas, principalmente os adeptos das raizes da Cultura Hip Hop, no Brasil e exterior.

A morte de George Floyde, homem negro assassinado por policiais brancos nos EUA, desencadeou, vindo a tona essa discussão na sociedade, na música migrando para a dança. A revista "Rolling Stone" fez um artigo muito importante e abrangente sobre o tema, informando que categorias 'urbanas' criam barreiras para músicas e danças negras e perpetuam o racismo. Um debate generalizado na indústria cultural tem considerado a categoria 'urban' de forma pejorativa para as diversas culturas negras.

Coreógrafos de renome internacional: Mari Madri, Keone Madri, Shaun Evaristo, Lyle Beniga, Anthony Lee, Jun Quemado, já se posicionaram para a comunidade global da dança contra o termo "urban" e abolindo de suas plataformas, por chegarem ao entendimento de que há implicações raciais prejudiciais associadas a ele, defendendo a idéia que: "se uma palavra é ofensiva para alguns deve ser uma palavra ofensiva para todos.", incentivando seus seguidores a fazer o mesmo.

O ator, dançarino e coreógrafo americano de ascendência afro-americana e porto-riquenha, conhecido profissionalmente como: Shabba Doo. Um dos fundadores do primeiro grupo de Dança de Rua da história: The Lockers, disse no filme: Break Dance (Breakin), de 1984, que era Street Dancer. Perguntamos recentemente para Shabba Doo, o que ele tinha a dizer sobre o assunto, ele disse: "O termo Dança Urbana é um termo de apropriação cultural, portanto é falso. O termo correto é Street Dance."

Perguntamos também para Buddha Stretch, dançarino muito respeitado, pioneiro do Freestyle Hip Hop Dance. Fundador do Elite Force Crew, um dos primeiros grupos a misturar estilos de dança afro- diaspórica, ele disse: "It's Street Dance or Street Styles."
O dançarino Poppin Pete, um dos fundadores do Grupo "The Electric Boogaloo" irmão mais novo do Mr Boogaloo Sam, criador dos estilos "Popping" e "Boogaloo Styles", disse: "É simples eu não uso a palavra urbano, urbano foi usado por causa do mal-entendido do Hip Hop ou da Dança de Rua, apenas para vendê-lo às pessoas."
O grupo de cantores e dançarinos chamado: Break Machine, na música: Street Dance (1983), dançam Popping, Waving e falam e cantam: "Street Dance."

Se no Brasil o termo "urbano" não é pejorativo, o termo Street Dance também não é para os americanos. Rótulo por rótulo, eu fico com as origens. Tudo sofre influências. Quando se diz "rua" pode ser popular e social, e não exatamente no sentido literal da palavra, ao "pé da letra", ou seja, veio das ruas, mas dança no palco. Com o tempo esse termo "rua" ganhou uma conotação poética de auto estima para rotular uma dança que foi para as ruas como foi na grande crise económica dos EUA, em 1929, antes do movimento Cultural Hip Hop.

Locking, Popping, Breaking surgiram nas "block party" que eram festas organizadas em quadras e porões por ícones do Hip Hop Mundial: Kool Herc, Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa, pilares dessa cultura.
Festa na qual muitos membros de uma única comunidade se reuniam para observar um evento de alguma importância ou simplesmente para diversão mútua.

Cada dança tem seu estudo, fundamento, e valor cultural, sociológico, antológico, antropológico e geográfico. Por isso existem batalhas especificas para cada estilo. Mas, se tratando de festivais de dança, palco italiano, o que deve ser avaliado é o conjunto da obra. A arte. O jurado precisa entender os estilos e suas técnicas de execução e avaliar a obra e não a tendência ou estilo que lhe agrada. Se a mistura de estilos na coreográfica não agradar, devemos ser imparciais e respeitar. Jurado precisa de experiência em campo, ou seja: que já passou por ensaios madrugadas a fio, dificuldades para organizar logística que implicam em despesas de figurino, viagens, estadias, pagamento de inscrição, muitas vezes até passando fome, e se machucando nos ensaios...Nenhum jurado que passou pelo crivo dessas dificuldades aplicará uma nota muito baixa para os trabalhos, porque sabe por experiência própria o quanto é sofrido a luta para se alcançar o devido valor e reconhecimento.

Para os que dominam a cultura, a discussão sobre esse assunto não dá crédito aos fundamentos, criando um apagamento das origens das danças específicas.
"Urban" é um termo segregador nos EUA. E se os precursores da Cultura Hip Hop concordam com isso, quem somos nós para discordar. Os que vivem a cultura de fato, nunca usaram esse termo: "urban."

Vejo como uma 'cortina de fumaça' para apagar, 'maquiar' as nossas origens e não nos define. Incomodou lá fora, incomodou aqui também, pelas mesmas razões atrelado a esse rótulo, com o objetivo velado de escamotear a nossa história. O tempero brasileiro sempre existiu na música e na dança. Eles têm a história deles e nós temos a nossa, que é linda. Lá eles tem Jay Z, aqui temos Racionais.

A história da Crew Elite Force que mistura estilos é similar a nossa história no Brasil. Eles começaram em 1992, nós começamos em 1991. Em cada cidade o movimento tem seu ano, sua história, sua origem, o que não significa que não existia antes. O ano de origem apenas aponta para quando foi organizado.
Se respeitamos a história dos criadores, por que não respeitar os profissionais que representam essa cultura no nosso país?
Quem discrimina alguém está indo contra a ideologia da Cultura Hip Hop. A nossa missão como educadores é agregar e não desagregar.

O hip hop sofreu muitas influências de outras danças, e revolucionou o mundo.

Esse momento não é para achar culpados, e sim de união e crescimento mútuo em prol da arte da Cultura Hip Hop. Não podemos destruir o sonho de quem ama dançar, e sim mostrar um caminho com o objetivo de transformar vidas.
Devemos sempre lembrar da semente que foi plantada e germinou, e hoje tem espaço para todos.
Vamos se atentar menos a detalhes irrelevantes e focar mais em ações, porque o Hip Hop é atitude, estado de espírito, cultura de rua, estilo de vida.
Quando se sabe mais, se faz melhor. Um ensina o outro e caminhamos juntos.

Marcelo Cirino
Ex-integrante da Crew Black Time Soul (1982).
Fundador da Crew The Blackson (1983).
Fundador da Crew Gang de Rua (1984).
Rapper pseudônimo: MC Mattar (1988).
Pesquisador e militante da Cultura Hip Hop, desde 1982.
Fundador, diretor e coreógrafo do Grupo Dança de Rua do Brasil, de Santos/SP (1991).
Influenciador pela implantação da modalidade: Dança de Rua no Brasil (1995).
Idealizador e Coordenador do Projeto Social Dança de Rua, da Secretaria de Cultura de Santos (1991).

 

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